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• IV Ciclo de estudos em Filosofia - Descartes na era da IA: do cogito ao código

Geral, Extensão

Curso de extensão universitária - Descartes na era da IA: do cogito ao código

 

Programação

Dia 20/09/2025 – Sábado (das 9:00hs às 12:00h)

“Cogito, ergo sum” versus “computo, ergo cogito”: a distinção entre sujeito substancial e lógica computacional

Dia 4/10/2025 – Sábado (das 9:00hs às 12:00 h)

Razão cartesiana versus algoritmização da inteligência: da razão universal à codificação do pensamento

Dia 25/10/2025 – Sábado (das 9:00hs às 12:00 h)

Mentes e máquinas: inteligência artificial generativa, automatização e simulação do pensamento


Ministrante: Dr. Claudinei Luiz Chitolina

Inscrições gratuitas: https://forms.gle/zpToBRvTdgYjUbQH7

50 Vagas - Certificado de 20h (com frequência de 75%)

Informações pelo e-mail: claudinei.chitolina@unespar.edu.br

(Os encontros serão na modalidade on line pela Plataforma Teams)

O atual estágio de desenvolvimento da humanidade tem na ciência e na técnica seus dois maiores sustentáculos. É o conhecimento técnico-científico que determina, em grande medida, as condições de nossa existência. O homem atual mantém uma relação de dependência para com os aparatos técnicos e os recursos científicos. Ao que parece, já não é possível viver, pensar e agir (trabalhar, se comunicar e se relacionar) sem os recursos técnicos de que dispomos. A técnica não é apenas um instrumento de mediação, mas nosso modo de existência. Herdeira do Iluminismo, a civilização tecnológica (técnico-científica) pretende livrar a humanidade de todos os males mediante o poder explicativo e preditivo da ciência, assim como aperfeiçoar as condições da vida humana pelo avanço tecnológico. O homem atual já não concebe mais sua vida sem os instrumentos técnicos. A tecnologia invadiu nossas vidas e fez sucumbir formas históricas de convivência e de trabalho. Porém, se no passado a técnica estava a serviço do homem, hoje, ao que parece, é o homem que está a serviço da técnica. A vida do homem contemporâneo parece impensável sem o aparato tecnológico, tal é o nosso grau de dependência da tecnologia. Porém, é próprio da evolução tecnológica suprimir a sua história (o passado), i.e., o progresso tecnológico suplanta formas anteriores de tecnologia, de modo que a obsolescência programada é uma característica inerente da técnica na sociedade contemporânea. Se, por um lado, resulta evidente os benefícios da tecnologia, dado que muitas tarefas repetitivas do trabalho e do pensamento operacional foram transferidas para as máquinas, por outro lado, o totalitarismo tecnológico das plataformas digitais, das redes sociais e das ferramentas de IA generativa impedem o desenvolvimento do pensamento crítico-criativo, porque estimulam a dispersão e a aceleração do pensamento. Dado seu grande apelo visual, as tecnologias digitais operam a substituição do conceito pela imagem, o que acarreta o encurtamento cognitivo – o empobrecimento do pensamento. A superficialidade das imagens e a simplificação da realidade impedem o surgimento e o desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo e criativo. Ao substituíram o exercício crítico do pensamento pela experiência dos sentidos, pelas emoções e desejos, as novas tecnologias digitais substituem a compreensão pela sensação, o conhecimento pela informação. Reduzido à condição de consumidor de informações, o indivíduo perde a capacidade de pensar por si mesmo. As sensações, as emoções e os desejos individuais se sobrepõem ao pensamento racional e aos interesses coletivos. O pensamento crítico-reflexivo e criativo necessário para o exercício filosófico foi substituído pela lógica operacional da racionalidade instrumental e pelo pensamento acelerado, encurtado e simplificado das plataformas digitais. A atenção, a concentração, a meditação, a pausa, a lentidão, o silêncio – condição imprescindível para o exercício do pensamento crítico-reflexivo foram substituídos pela dispersão, distração, reação emocional e pela aceleração do pensamento. O pensamento autônomo foi substituído pelo pensamento assistido, vigiado, dirigido, controlado e moldado pelos algoritmos das plataformas digitais e pelos chatbots da IA generativa. Ao eliminar a diferença entre o original e a cópia, as tecnologias digitais comprometem a autoria e a autonomia do pensamento. O pensamento original e sua cópia (réplica/reprodução) tornaram-se indistinguíveis. Por isso, os direitos autorais e o pensamento autoral correm o risco de desaparecer. Como se vê, estamos assistindo ao desaparecimento do sujeito racional, crítico e criativo, capaz de resistir contra as diferentes formas de dominação e de opressão. Neste sentido, o retorno a Descartes resulta incontornável, se quisermos compreender a natureza metafísica do sujeito pensante. A revolução digital em curso suscita velha e novas questões filosóficas, o que nos obriga a repensar o que é o pensamento, a mente, a consciência, a liberdade e a subjetividade. Sob este aspecto, a teoria cartesiana da mente constitui um contraponto inevitável, uma vez que para Descartes, o pensamento não é passível de replicação técnica ou artificial. Em termos cartesianos, o suposto “pensamento algorítmico” das ferramentas de IA generativa não é, em sentido próprio, pensamento, mas simulação do pensamento, porque carece de um sujeito. Ou seja, não há pensamento sem um sujeito que pensa. Trata-se, portanto, não só de empreendermos um retorno ao pensamento de Descartes, mas de redescobrir e reinterpretar o legado cartesiano acerca da natureza da mente, do pensamento e da consciência. A tese cartesiana de que a mente não é uma máquina, ou seja, o pensamento não é mecanizável ressoa no contexto atual como um libelo acusatório contra as pretensões desmedidas dos engenheiros e ideólogos das ferramentas de IA generativa. Se, para Descartes, não há pensamento sem um sujeito que pensa, resulta inevitável e atual a questão: em que sentido o pensamento não se confunde com o cálculo ou com o cômputo? Ou seja, por que o pensamento não é computável? Em termos filosóficos, resulta preocupante a adesão acrítica, o fascínio e o deslumbramento causados pelas promessas e pelas potencialidades tecnológicas das novas ferramentas de “inteligência artificial” generativa. Se não se pode consentir nem com os prometeicos e nem com os fáusticos, é porque a tecnofilia e a tecnofobia não são atitudes razoáveis. Para os entusiastas e defensores das ferramentas de IA generativa, os recentes avanços tecnológicos comprovam não só que as máquinas pensam, mas que pensam tão bem ou melhor que os seres humanos, porque executam tarefas que quando executadas pelos humanos requerem pensamento ou inteligência. O ChatGPT (Chat Generative Pre-trained Transformer), p.ex., é um robô virtual – que parece entender, ler, falar, escrever (produzir textos, áudios, vídeos, pintar quadros, compor músicas e poesias) – ou seja, realiza tarefas cognitivas que eram prerrogativas dos seres humanos. A simulação parece mais perfeita que a própria realidade. Ciência e ficção aparecem de forma confusa no pensamento dos gurus das novas tecnologias digitais. O mito da singularidade tecnológica que consiste na crença (injustificada) de que as máquinas ultrapassarão a inteligência humana e se tornarão superinteligentes alimenta a imaginação (e o desejo) não só dos tecnocratas, mas de muitos usuários das novas ferramentas de IA generativa. O Curso de Extensão Universitária tratará da atualidade da teoria cartesiana da mente em confronto crítico com os recentes avanços, possibilidades, problemas, perigos e desafios da inteligência artificial generativa. As inscrições são gratuitas e o convite se estende a todos aqueles que nutrem interesse em compreender criticamente a natureza da mente (do pensamento e da consciência) – as potencialidades, os limites e as implicações da inteligência artificial.